ARGENTINA
A imprensa, que há décadas luta para manter sua liberdade, enfrenta
agora seu mais perigoso inimigo, a crise econômica que sufoca as empresas
jornalísticas e as coloca em sério risco de desaparecer.
A gravíssima crise que afeta todos os setores da produção
nacional piorou ainda mais nos últimos meses. As receitas do jornalismo
impresso caíram drasticamente com a diminuição na venda
de exemplares e de anúncios. Os editores nacionais divulgaram sérias
advertências sobre esta situação, pois o jornalismo teve
que enfrentar uma crescente pressão fiscal com a aplicação
do IVA à publicidade e, depois, ao preço de capa de jornais
e revistas.
Esta é a principal questão que preocupa os meios de comunicação,
especialmente os do interior, que enfrentam uma pesada carga tributária.
As entidades representantes da imprensa submeteram ao Poder Executivo dois
anteprojetos para proteger as aspirações de pequenas e médias
empresas, que solicitam isenções de impostos e condições
facilitadas para o pagamento de dívidas tributárias. Até
agora não houve nenhuma resposta.
Em maio, um projeto de lei foi apresentado no Senado solicitando isenções
do IVA sobre a publicidade e uma redução de 50% da alíquota
desse imposto sobre a aquisição de papel, exclusivamente para
as editoras Pymes.
Na quarta-feira, 18 de setembro, a Câmara de Deputados adiou o exame
de um projeto de lei que revogaria a desregulamentação da venda
de jornais, revistas e publicações similares.
A imprensa argentina emitiu um documento sobre este projeto, que foi qualificado
como um retrocesso, pois "esta desregulamentação acabaria
com mais de cinqüenta anos de um sistema de comercialização
fechado, único no mundo, que estabelecia privilégios para uma
minoria e impedia a criação de novas fontes de trabalho".
A desregulamentação facilitou o acesso das pessoas aos jornais,
pois novas fontes de vendas começaram a se estabelecer, em benefício
dos leitores. A medida foi implementada por uma resolução ministerial
do governo anterior e posteriormente confirmada pelo decreto 1.025, de 4 de
novembro de 2000.
As organizações jornalísticas salientaram que, com a
desregulamentação, as liberdades de expressão e de imprensa,
de comércio e de trabalho são protegidas. Observaram que é
necessário assegurar o funcionamento das empresas e evitar o desaparecimento
das publicações, o que ameaçaria uma verdadeira pluralidade
informativa.
Em 16 de outubro, o Supremo Tribunal de Justiça aprovou uma resolução
do Tribunal Superior de Justiça de Córdoba, que havia absolvido
o jornal La Voz del Interior em uma ação por injúria
ingressada por Miguel Angel Caruso, dono de uma empresa de máquinas
de vídeo-poker.
O Supremo Tribunal manteve a sentença de setembro de 1999, com base
na doutrina de "dolo" invocada pelos advogados do matutino, absolveu
do delito de injúrias o editor responsável, Luis Eduardo Remonda,
na época o chefe de redação do jornal.
Em 1997, o jornal reproduziu uma investigação jornalística
do Canal 10 de Córdoba sobre as máquinas de vídeo-poker
e o assassinato do ex-senador radical Regino Maders. O jornal, mencionando
informações obtidas nos documentos judiciais, mencionou o suposto
vínculo do crime com pessoas relacionadas com o negócio de vídeo-poker.
Caruso sentiu-se ofendido pela publicação e processou o jornal
La Voz del Interior e seu diretor.
Em primeira instância, Remonda foi considerado responsável, porém
o Tribunal Superior de Justiça revogou a condenação em
setembro de 1999, determinando que "a liberdade de imprensa tem prioridade
perante outras liberdades, desde que seja praticada dentro de determinadas
diretrizes".
O processo chegou ao Supremo Tribunal, que confirmou de forma unânime
os argumentos dos advogados de Remonda, e concluiu que o tribunal da província
aplicou corretamente a lei quando determinou que as expressões que
o demandante considerou injuriosas não tinham sido criadas pelo La
Voz del Interior, mas tinham vindo do testemunho de duas pessoas que constavam
dos registros judiciais, as quais foram mencionadas no artigo.
No início de outubro, o dr. Oscar Jorge Troisi, cirurgião residente
em Río Grande, Tierra del Fuego, apresentou queixa de que foi punido
em seu trabalho, que é administrado pelo governo, por causa de suas
opiniões expressas no jornal Provincia 23, daquela cidade.
O dr. Troisi trabalha no Hospital Regional Río Grande e escreve uma
coluna gratuitamente para o Provincia 23, em que discute diferentes temas.
Publicou inclusive uma Carta Aberta ao governador Manfredotti.
Como resultado desses artigos, diz o autor da ação, ele foi
suspenso duas vezes de seu cargo no hospital, primeiro por cinco dias e depois
por 10 dias. Apelou dessas punições por via administrativa,
mas Troisi supõe que receberá novas medidas disciplinares, com
o suposto objetivo de exonerá-lo.
A jornalista Clara Britos, diretora e proprietária do jornal La Tapa,
de Guernica, província de Buenos Aires, denunciou que sofre intimidações
e ameaças em conseqüência de sua atividade profissional.
Em uma nota de denúncia em seu jornal, ela garante que "ocorrem
sérios atos de corrupção" nessa localidade. Adverte
também que "não existem garantias, exerço minha
profissão sob a pressão de não saber o que pode acontecer
comigo ou com alguém de minha família". Os fatos apresentados
por Britos são ameaças por telefone e e-mail, perseguições
de intimidação e o grampo de seu telefone.
A jornalista acusa Oscar Rodríguez, um ex-chefe do Estado maior, com
quem teve um "confronto verbal" quando ela lhe solicitou uma entrevista.
Em um incidente de repercussão nacional, um grupo de guarda-costas
do ex-presidente Carlos Menem ameaçou e atacou brutalmente uma equipe
jornalística do programa de televisão "Caiga quien Caiga",
na cidade de Tucumán. A equipe, liderada pelo jornalista Daniel Malnatti,
foi atacada e ameaçada por supostos guarda-costas de Menem.
O diretor do Tiempo Sur, de Río Gallegos, Leopoldo Jorge Kalmus, denunciou
um atentado contra ele em frente do edifício do jornal, além
das ameaças sofridas por jornalistas deste meio e por seus filhos.
Entre outras agressões, no domingo, 19 de maio, desconhecidos dispararam
contra a vidraça do jornal La Defensa Popular, de Campana, dirigido
por Daniel Vogel. Na madrugada de segunda-feira, 20 de maio, um tiro foi disparado
contra a residência de Ricardo Le Fort, o gerente de Relações
Institucionais do jornal El Siglo, de Tucumán.
Em Catamarca, causou apreensão a agressão sofrida pelos jornalistas
Ariel Brizuela e Carlos López Véliz, do jornal El Ancasti e
da Radio Ancasti, respectivamente, por membros da infantaria da polícia
da província, enquanto cobriam uma demonstração.
Em conseqüência de sucessivos processos judiciais, o jornal El
Ancasti, de Catamarca, denunciou uma situação de "assédio
judicial". O jornal informou que tinha em trâmites um total de
19 processos.
Em 17 de setembro, o juiz federal Claudio Bonadío ordenou que o correspondente
em Buenos Aires do Financial Times, Thomas Catán, apresentasse uma
lista de chamadas telefônicas feitas por ele. A ordem foi dada depois
que Catán recusou-se a revelar suas fontes de informação
com relação a denúncias de banqueiros estrangeiros sobre
uma tentativa de suborno realizada por senadores argentinos para deter a tramitação
de um projeto de lei que imporia novos impostos aos bancos. A ação
do juiz constituiu uma violação da Constituição
do país, que garante a confidencialidade das fontes jornalísticas.
No final de outubro, a Sala II do Tribunal Federal emitiu uma sentença
a favor do jornalista Catán, decretando a anulação da
decisão do juiz Bonadío. A sentença determinou a destruição,
na presença do jornalista ou de seus advogados, da lista de chamadas
telefônicas.
O Senado fez o primeiro exame de um projeto de lei apresentado pelo senador
Jorge Yoma e apoiado pelo senador Jorge Busti, que reduziria os custos de
produção de editoras de pequeno e médio porte, pela gravíssima
situação que estas enfrentam.
O projeto estabelece a isenção do IVA aos espaços publicitários
dessas empresas e reduz em 50% a alíquota vigente para o papel-jornal.
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